“O movimento das imagens sonoras”

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Este pintor era sempre um sujeito estranho; apesar da sua surdez amava entusiasticamente a música, e deve ter sido capaz, quando se encontrava suficientemente perto da orquestra, de ler a música nos rostos dos músicos, e de apreciar pelos movimentos dos seus dedos a execução mais ou menos conseguida; também escrevia críticas de ópera num apreciado jornal de Hamburgo. O que é aqui de admirar? Na assinatura visível da execução, o pintor surdo era capaz de ver os sons. É que há pessoas para quem os próprios sons não são apenas assinaturas invisíveis, em que ouvem cores e figuras.

Na leitura das assinaturas das imagens sonoras de Heine, a «assinatura visível» que apresenta sons ao olhar, é substituída pela «assinatura invisível», que torna as cores audíveis. Deste modo, quem lê na assinatura visível do fenómeno, acaba por perder a ressonância sonora na música e na voz, e permanece sempre dependente dos sinais de pintor do intérprete, que sendo ele próprio surdo, descreve a assinatura visível da sua partitura sem sons. Naquilo que o narrador de Heine descreve e analisa no exemplo do pintor surdo Lyser, actua aquela «transformação dos sons» em mímica visível do rosto e da figura, que despertou repetidamente a impressão da ilegibilidade de uma assinatura dançada.
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… A solução do «enigma dançado» cujo processo se limita exclusivamente à lógica de representação da dança, reside na descrição daquilo que faz a insolubilidade do enigma. A representação da dança, como assinatura que necessita de ser decifrada, coloca o leitor perante as mesmas aporias colocadas pela representação audiovisual daquelas fisionomias de Heine … é que a própria representação da percepção de assinaturas em movimento com o auxílio de uma economia dos sentidos substituta, descreve com espantosa exactidão a estrutura da linguagem que constitui também a dança. E compreender significa, em primeira linha, explicar porque é que a solução não se pode ler em termos semânticos, dado que é a própria leitura que coloca o enigma.
Theodor W. Adorno assumiu uma posição semelhante em relação à obra de arte. Na sua “Teoria Estética” fala da obra de arte como de um enigma que não se dissolve na sua solução sem deixar resto. Segundo Adorno, o enigma é imanente a toda a obra de arte, mas «resolver o enigma é o mesmo que indicar a razão da sua insolubilidade: o olhar com que as obras de arte contemplam o observador». Segundo Adorno, a obra de arte espera precisamente pela palavra que dá a solução, capaz de compreender o olhar enigmático; mas compreender significaria então produzi-la de novo «a partir do interior», por assim dizer como interpretação musical da partitura imagética.
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(o pintor mudo: Johan Peter Lyser)

Roger W. Müller Farguell

«FIGURAS DA DANÇA – Sobre a Constituição Metafórica do Movimento em Textos,
Capítulo IV – HEINE», (Edição) GULBENKIAN Educação

>>> em ALI_SE

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