Uma imagem nunca está só

GILLES DELEUZE, Conversações 1990, Fim de Século Edições, 2003

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Uma imagem nunca está só. O que conta é a relação entre imagens. Ora, quando a percepção se torna óptica e sonora pura, com que entra então em relação, uma vez que já não é com a acção? A imagem actual, cortada do seu prolongamento motor, entra em relação com uma imagem virtual, imagem mental ou em espelho. Vi a fábrica, e julguei ver condenados…
Em vez de um prolongamento linear, temos um circuito em que as duas imagens não páram de correr uma atrás da outra, em torno de um ponto de indistinção do real e do imaginário.
Dir-se-ia que a imagem actual e a sua imagem virtual cristalizam. É uma imagem-cristal, sempre dupla ou redobrada, tal como a encontramos em Renoir, mas também em Ophuls e como a encontraremos de outra maneira ainda em Fellini.
Há muitos modos de cristalização da imagem, e de signos cristalinos. Mas vemos sempre qualquer coisa no cristal. O que começamos por ver é o Tempo, os lençóis do tempo, uma imagem-tempo directa. Não é que o movimento tenha parado, mas a relação do movimento e do tempo inverteu-se. O tempo já não é concluído da composição das imagens-movimento (montagem), é o inverso, é o movimento que decorre do tempo. A montagem não desaparece necessariamente, mas muda de sentido. Torna-se “mostragem” (“montrage”), como diz Lapoujade. Em segundo lugar, a imagem mantém novas relações com os seus próprios elementos ópticos e sonoros: dir-se-ia que a vidência faz dela qualquer coisa de “legível”, mais ainda que de visível. Torna-se possível toda uma pedagogia da imagem à maneira de Godard. Enfim, a imagem torna-se pensamento, capaz de apreender os mecanismos do pensamento
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ESTUDOS, TEXTOS, ENSAIOS E OBRAS EM IMAGEM(NS) E O SENTIDO DA ARTE
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